“Queridos Amigos” valeu muito a pena.
A personagens de Matheus Nachtergaele e Dan Stulbach resumiram em uma cena 'o pensar político' da época. Eles diziam que “a questão não era SER de esquerda, e sim, ESTAR com a esquerda, para, dessa forma, não ser conivente com a direita, que pregava a implantação de um neoliberalismo que geraria miséria, desigualdade e fome (vide 2008) - só não imaginávamos que nunca mais conseguiríamos fugir dele.
O interessante da série, é que ninguém quis agradar pseudo-militantes e adoradores de ‘Che’ em pôsteres e camisetas sem qualquer noção de engajamento político – que, a meu ver, começa pelas próprias escolhas.
Uma outra cena bastante comentada foi a de Guilherme Weber (sua personagem foi a bicha mais perfeita já vista na TV brasileira) no último capítulo. Aquilo sim foi uma declaração de amor a um amigo:
“Bendito seja você, Léo, que habitou as sombras!
Bendito seja você na arrogância, na paranóia, no delírio, na pretensão de escrever a obra definitiva!
Bendita a sua luz que brilhou para mim e mais uns poucos!
Bendito o teu fracasso, o álcool que corroeu as tuas vísceras, a nicotina que envenenou teu sangue, bendita a coragem de cagar pra vida, bendita a morte que te acolheu!
Benditos todos os que como você escolheram as trevas, benditos os loucos, os homossexuais, os bêbados e párias de todas as ordens, bendita a solidão, bendito o desespero que fez você cometer finalmente a grande obra da sua vida!
Bendito seja você , meu amigo!”

http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM809142-7822-DISCURSO+EMOCIONADO,00.html
A cumplicidade entre os amigos foi tocante. A vida de um dependia do silêncio do outro. E cada novo dia de silêncio significava mais um dia certo de tortura e abusos.
A maioria das pessoas peca por não ter coragem de mostrar suas fraquezas quando necessário, mas, principalmente, quando deve-se admitir um erro.
Raiva, inveja, frustração, ressentimento... sentimentos pelos quais passamos diariamente, mas que, em algum momento, devemos encará-los de frente, o que demanda muito mais coragem e dignidade do que escondê-los ou negá-los.
Minha inveja vem da ânsia por amigos que saibam o valor de se dividir as mesmas ideologias, que lutem com a mesma coragem, sem medo de parecer inconsequentes ou ridículos, sem medo do julgamento de uma minoria, pois a recompensa por ser o que se é acaba por tornar-se maior e mais gratificante do que tais picuinhas.
Ânsia por amigos como aqueles, “Queridos”, a quem se podia confiar a vida, sem exitar; a quem algumas palavras mal ditas ( ou seriam malditas?) nunca iriam se sobrepor à toda uma história.
Sinceramente não sei se amigos assim existem, mas, acreditar que sim, será apenas mais uma inofensiva utopia entre tantas outras.